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terça-feira, 19 de outubro de 2010

clap clap clap


A história de uma borboleta que se apaixonou por um soco.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

prólogo


E naquela manhã chuvosa você era a única pessoa que escolheu sentar na varanda para tomar um café...Só porque havíamos marcado de nos encontrar ali você tem mesmo que me esperar ali? Pontualmente e exatamente ali?! Deus!!

___

Ato I


– Oi..


– Oi!


– Desculpe o atraso


– Tudo bem, não faz mal! [carinho]


– ... [silêncio]


– Você está linda [carinho]


– ... [silêncio]


– Tudo bem?


– Estou só um pouco cansada. E com frio. [silêncio]


___


epílogo


Será possível que você me ame tanto assim?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Eu não tenho o controle

Eu gosto de ouvir o som dos meus próprios passos.
E gosto de andar olhando pra baixo também.

Ver as pedrinhas, a textura da calçada (estranho não? São texturas tão ricas que me privo de sentir), os pedaços de papéis que alguém não quis. Poeira, barata morta, gente, tem tanta coisa espalhada por aí.

Aí começo, de repente, a achar que são meus pés que escolhem o caminho, não eu... Como se eles fossem eles, e eu fosse eu; e não como deveria ser: eles sendo eu, e vice-versa.
Essa é a hora mais estranha da caminhada e da minha vida.

Às vezes até paro forçadamente e fico mexendo meus dedos, ou dando passos apertadinhos, rodopiando, cruzando pernas, fazendo qualquer coisa só pra ter certeza que aqueles pés são mesmos meus.

Mas não adianta.
Fazer isso é só uma tentativa desesperada de provar pra mim que eu sou dona da minha vida, quando não sou.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Encontro Ideal n°01


(Escrito em Julho de 2007)


Uma padaria, às 8h00.

Ele está resfriado.
Eu estou com pressa.

Ele percebe que estou triste - sim, só posso estar triste - e oferece um pouco do seu café. Olho para xícara infestada de bactérias do desconhecido com certo desdém, porque, além de não querer adoecer, meu ego matinal é mais forte que qualquer amor ainda não sentido.
Mas, mesmo assim eu bebo.

Ouço a voz dele pela primeira vez:
- Minha mãe sempre me levava café na cama quando sabia que eu estava triste.

Disfarço um sorriso frouxo e uma lágrima frouxa.

Sento ao lado dele e tento dizer o quanto não estou triste. Tento dizer que estou apressada, já que eu e minha equipe havíamos combinado de nos encontrar no escritório, em pleno sábado, para poder finalizar o projeto no dia marcado. Penso em contar-lhe mais sobre minha profissão, sobre meus horários, meus amigos. Penso em tudo ao mesmo tempo.

Então eu digo:
- Hmm.

Olho o sujeito de soslaio. Não tinha visto seu rosto até o momento e estava, pois, tomando o café de um par de calças. Só então percebo que seu nariz estava vermelho pelo resfriado.

- E o melhor é que sempre funcionava.

Demorei um pouco pra entender que ele se referia ao café na cama com carinho de mãe. Quando entendi, sorri novamente, mas dessa vez sem disfarces. E sem lágrimas também.

Ele percebeu; sorriu de volta. Digamos que deu risada. Virou o rosto para o meu lado e, por baixo dos cachos que lhe caíam testa à baixo, olhou para mim. Não olhou para os meus olhos, olhou para mim inteira, para minha tristeza, para minha alma; creio que naquele momento ele sentiu exatamente o mesmo que eu sentia.

Fiquei feliz por ser compreendida por alguém, mas a indefinição do pronome "alguém" fez a situação um pouco constrangedora.Endireitei a coluna e pigarreei.

- Meus pais - recomeçou ele - diziam que uma bebida quente renova a alma de qualquer um. Você quer um café?
E novamente me olhou.
- Sim...
Fiz movimentos para chamar o atendente, mas ele foi mais rápido.

- Estou triste.
- Eu sei.

Passou-se um tempo. Dois tempos, três tempos, não sei. Quanto tempo demora para se colocar um pouco de café em um pouco de xícara?

- Hoje é sábado - arrisquei, na tentativa banal de reestabelecer um diálogo.
- Triste, não?
- Para você também é triste?
- Claro.
Dessa vez ele sorriu e chorou. Eu só amei.

Passou-se outro tempo. Quatro tempos, cinco tempos. Quanto tempo demora para se viver uma vida?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Blasé

Gosto muito da sua maneira de se vestir.

Você usa blusas folgadas e saias esvoaçantes e é falsamente recatada, quando evidencia sua nudez por baixo dos panos.

Golas folgadas caem dos ombros. As saias são abaixo do joelho, mas com um tecido translúcido e qualquer um pode observar o movimento de suas pernas finas. Seu pescoço está sempre livre.

Movimentos leves, descuidos propositais, corpo "escondido".

Gosto muito da sua maneira de ser puta...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O cu de Newton, por Blake

Certo dia, o matemático Sir Isaac Newton acordou puto de sua vida baconiaca e desregrada.
Resolveu tomar um rumo.

O primeiro passo era trocar suas vestes luxuriosas (definitivamente, túnica de veludo vermelho estava muito out).

Ficou em dúvida entre a túnica creme e a branca.

Optou, sabiamente, em ficar peladão e mostrar seus músculos perfeitamente harmônicos, calculados pelos deuses e esculpidos pelos anjos... estava calor mesmo, e, de qualquer modo, não tinha ninguém por perto.

Delicadamente, acomodou seu cu em cima de toda a organicidade do mundo e foi brincar de ser exato.


Fim.

(Inspirado na obra Newton, do poeta e pintor inglês Willian Blake

terça-feira, 26 de maio de 2009

pobreza e simplicidade sintética

- De quem é essa marmita esquentando?
- É da Jane.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

ccc . conto café coragem

Toda manhã ela vem até minha mesa de trabalho, sem eu pedir, e traz um sorriso e um cafezinho.

"Muito obrigado, querida."
"De nada! De nada!"
O sorriso dela é tão simples, que se escancara ao receber o agradecimento.

Justamente por causa dessa simplicidade nunca tive coragem de dizer a ela que
EU ODEIO ESSA PORRA DE CAFÉ QUE A SENHORA FAZ!

Eu ainda tenho coração demais para responder assim...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Mazoquismo



Era uma mulher alta e elegante.
Suas angulosidades perfuravam meu ego toda vez que nos encontrávamos.
Aferroava-me sua imponência.

Seus passos sonoros ressoavam pelo salão; pelas ruas, pelo planeta.
Não havia quem não notasse sua presença incisiva, preenchendo todas as arestas vazias que pudessem existir.

As mãos, compridas e finas como eucaliptos.
Dedos longos, delicados, verdadeiramente femininos.

E quando sorria, todos sorriam também.
Mas sempre com aquele receio de ser atingido, perfurado por uma de suas quinas.

Ela me doia como picada de abelha.

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A mulher angulosa foi a mulher que eu mais amei...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

toca reca

Qual não foi sua surpresa quando se olhou no espelho e percebeu que perdera todo o cabelo durante o banho.

Pigarreou,esfregou os olhos.
Olhou-se novamente e constatou que o fenômeno não ocorreu só com os cabelos; todos os outros pêlos do corpo haviam misteriosamente sumido.
Manteve a calma. Pensou que era um sonho, ou uma alucinação – tinha mesmo bebido uns goles no caminho do trabalho para casa.
Diria até que riu, estava de fato engraçado: nu e careca.

"Nunca estive tão pelado quanto estou agora" – pensou.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Eletrodomesticados



Era uma vez uma máquina de lavar.
A máquina de lavar da minha casa. Ah! Como era bela! Grande, robusta, lavava até 8kg, não exigia que se esfregasse a roupa manchada antes e ainda economizava sabão em pó como nenhuma outra.

O único problema era que ela não queria ser máquina de lavar para sempre.

Sonhava em ser um avião.

Tentou por inúmeras vezes alçar vôo da lavanderia rumo ao infinito do firmamento. Porém o fio da tomada dela a impedia: possuia apenas 1m de comprimento
– 1 metro apenas?
– Sim, 1 metro apenas. Ele não tinha aquele espírito sonhador.

Então a máquina só podia sonhar até 1m, o que era uma tremenda injustiça se comparamos aos aspiradores de pó, que podem sonhar até quase 7m de comprimento. Podem sonhar embaixo da cama, atrás do sofá, dentro do armário. Os mais aventureiros podem sonhar até mesmo dentro dos carros.
Mas aspiradores de pó não sonham tão alto como a minha antiga máquina de lavar. Eles nunca quiseram sair voando por aí, mesmo tendo oportunidade para tal; se contentam em passar a vida útil aspirando as migalhas que o dono renega, achando que serão valorizados por executar a tarefa com resignação.

Humpf... odeio aspiradores de pó.

Acontece que as investidas da máquina acabaram por apressar seu fim.
Foi trocada por uma outra que aceita tudo que lhe é imposto. Sempre calada, sempre lavando, sem causar maiores danos.
Coitadinha, esta nunca sonhou em voar.

sábado, 10 de janeiro de 2009

direita

Ela estava sentada na cama.

Ele deitou-se, a cabeça apoiada nas pernas cruzadas dela. Sorriu ao perceber que era muito mais bonita daquele ângulo do que dos outros que viu durante a noite toda.

Sentiu saudade de sua namorada. Não era tão bonita, mas ele estava realmente apaixonado dessa vez... não devia ter cedido e passado a noite com esta outra mulher. Ainda que não tivessem feito nada de mais, de certo modo traiu; e se sentia mal com isso.

- Frioziiinho... – disse ela, enquanto se abaixava na direção de seu pescoço.

Era tão bom... e ela tão bonita! Ainda mais na luz matinal que entrava pela janela do quarto, dançando no mesmo ritmo que a cortina ao vento. Acariciou sua nuca, sentiu os pelinhos se arrepiando.

As bocas se aproximaram, se encontraram.

- Melhor não
- É.

Ele levantou-se, arrumou o casaco. Olhou novamente para ela, que permaneceu na mesma posição: sentada, pernas cruzadas uma sobre a outra, a blusa caindo-lhe sobre os ombros. Um feixe de luz em seu rosto.

Encurvado em sua direção, deu-lhe outro beijo. Sorriu. Ele, sentindo-se um canalha e, ao mesmo tempo, um poeta, se espantou ao ouvi-la dizer:

- Você tem mau-hálito.

esquerda

Ela estava sentada na cama.

Ele deitou-se, a cabeça apoiada em suas pernas cruzadas, sorrindo para ela como se intencionasse pedir sua permissão, tamanha invasão era aquela.
Era uma atitude dispensável: durante toda a noite roubou-lhe carinhos intensos, fez-lhe ofegar; um colinho inocente numa manhã fria não era nada comparado a tudo que já havia acontecido entre os dois.

- Frioziiinho...

Encurvou o corpo na direção do pescoço dele.
Ao abaixar-se, sentiu a mão masculina encostada em sua nuca, que descia para as costas e violava a blusa amarrotada.

As bocas se aproximaram, se encontraram.

- Melhor não
- É.

Ele levantou-se, arrumou o casaco. Olhou novamente para ela, que permaneceu na mesma posição: sentada, pernas cruzadas uma sobre a outra, a blusa caindo-lhe sobre os ombros. Um feixe de luz em seu rosto.

Encurvado em sua direção, deu-lhe outro beijo. Sorriu. Ela, sentindo-se orgulhosa e, ao mesmo tempo, uma vadia, disse:

- Você tem mau-hálito.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Câmera Lenta

Dois irmãos esperando para embarcar.
A plataforma estava lotada de pessoas dignas, indo aos seus trabalhos dignos, por isso, quando o trem chegou e abriu suas portas nem todos que estavam aguardando do lado de fora conseguiram entrar, dado a quantidade de pessoas amontoadas naquele vagão.

O irmão mais velho conseguiu. Entrou, virou-se e viu seu irmão mais novo separado de si.

Num arroubo fraternal, impróprio de sua conduta corriqueira, segurou com os cotovelos as portas que já se fechavam e gritou:
-Entra logo!
Assustado com tanto carinho, o irmão mais novo estacou boquiaberto.
Nunca imaginou que seu irmão pudesse tomar tal atitude, não sabia nem se o irmão lembrava que estavam juntos naquela manhã chuvosa e sonolenta.
-Não dá mais tempo de subir - disse.

Observou seu irmão, que o olhava fixamente enquanto ia embora dentro do vagão lotado.


Era a primeira vez que reparava que seu irmão tinha os olhos mais claros que os dele.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dona Maria


"- Outro dia encontrei ele na feira. Acho que ele não me viu, sabe, porque continuou o caminho dele, geralmente ele muda de calçada quando me vê... aí eu falei ' Oi, Marcos, tá todo bonitão, hein' - disse assim pq ele é um moço bonito, moreno alto com um soriso bem feito. 'Cadê a Dinalva que não tá com você?'. Ele respondeu 'Ela tá trabalhando hoje, vim fazer a feira no lugar dela' 'Ahn... olha, qualquer coisa me procura que eu tô morando aqui de novo, tá?'. Falei assim pra não cobrar o dinheiro que ele tá me devendo desde a época que morou de inquilino na minha casa. É muito despeito, não acha? Tá me devendo trezentos e sessenta real até hoje e nem me procurou! Mas ainda bem que ele saiu da minha casa... Depois ele foi pra uma das casas do seu Zé, mas logo saiu de lá também. A mulher do seu Zé - como ela chama mesmo? - a mulher do seu Zé falou que ele levou a tampa da privada da casa, que era toda enfeitada, cheia de coisa. Diz que agora voltou pro Recife, porque a família dele é de lá. Ai, eu fico pensando se Deus vai me guiar, agora que vou morar em Taquaritinga com a Suely. Eu, quando cobro Deus falo assim 'Meu Pai,
aqui estou pedindo sua ajuda'; porque eu sou viúva, viúva de verdade mesmo - que tem muita viúva safada - e está na bíblia que Deus guia os negócios das viúvas que precisam Dele. É, Deus vai guiar, vai guiar. Sabe que ontem eu tava na Suely e fiquei conversanco com a Bruna; a menina tá grandona, gorda que só se vendo, mas que menina que come! Se bem que com uma mãe daquelas, qualquer um engorda, a Suely tá fazendo uns doces ótimos, nesse Natal foram duzentos e trinta e sete, não, duzentos e vinte e sete panetones de encomenda. A suely é mesmo uma ótima cozinheira...