Já tentei escrever sobre como estranho ser alguém do mundo.
Sei que existo dentro de mim, mas me dar conta que também existo pra fora é bastante aterrador.
E hoje isso aconteceu, enquanto arrumava o cabelo na frente do espelho.
Porque eu tenho cabelo... e faço reflexo num espelho.
Ocupo um espaço, posso mudar as coisas de lugar, sou uma pessoa e isso é tão estranho, meu deus do céu.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
prólogo
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Ato I
– Oi..
– Oi!
– Desculpe o atraso
– Tudo bem, não faz mal! [carinho]
– ... [silêncio]
– Você está linda [carinho]
– ... [silêncio]
– Tudo bem?
– Estou só um pouco cansada. E com frio. [silêncio]
___
epílogo
Será possível que você me ame tanto assim?
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Encontro Ideal n°01

(Escrito em Julho de 2007)
Uma padaria, às 8h00.
Ele está resfriado.
Eu estou com pressa.
Ele percebe que estou triste - sim, só posso estar triste - e oferece um pouco do seu café. Olho para xícara infestada de bactérias do desconhecido com certo desdém, porque, além de não querer adoecer, meu ego matinal é mais forte que qualquer amor ainda não sentido.
Mas, mesmo assim eu bebo.
Ouço a voz dele pela primeira vez:
- Minha mãe sempre me levava café na cama quando sabia que eu estava triste.
Disfarço um sorriso frouxo e uma lágrima frouxa.
Sento ao lado dele e tento dizer o quanto não estou triste. Tento dizer que estou apressada, já que eu e minha equipe havíamos combinado de nos encontrar no escritório, em pleno sábado, para poder finalizar o projeto no dia marcado. Penso em contar-lhe mais sobre minha profissão, sobre meus horários, meus amigos. Penso em tudo ao mesmo tempo.
Então eu digo:
- Hmm.
Olho o sujeito de soslaio. Não tinha visto seu rosto até o momento e estava, pois, tomando o café de um par de calças. Só então percebo que seu nariz estava vermelho pelo resfriado.
- E o melhor é que sempre funcionava.
Demorei um pouco pra entender que ele se referia ao café na cama com carinho de mãe. Quando entendi, sorri novamente, mas dessa vez sem disfarces. E sem lágrimas também.
Ele percebeu; sorriu de volta. Digamos que deu risada. Virou o rosto para o meu lado e, por baixo dos cachos que lhe caíam testa à baixo, olhou para mim. Não olhou para os meus olhos, olhou para mim inteira, para minha tristeza, para minha alma; creio que naquele momento ele sentiu exatamente o mesmo que eu sentia.
Fiquei feliz por ser compreendida por alguém, mas a indefinição do pronome "alguém" fez a situação um pouco constrangedora.Endireitei a coluna e pigarreei.
- Meus pais - recomeçou ele - diziam que uma bebida quente renova a alma de qualquer um. Você quer um café?
E novamente me olhou.
- Sim...
Fiz movimentos para chamar o atendente, mas ele foi mais rápido.
- Estou triste.
- Eu sei.
Passou-se um tempo. Dois tempos, três tempos, não sei. Quanto tempo demora para se colocar um pouco de café em um pouco de xícara?
- Hoje é sábado - arrisquei, na tentativa banal de reestabelecer um diálogo.
- Triste, não?
- Para você também é triste?
- Claro.
Dessa vez ele sorriu e chorou. Eu só amei.
Passou-se outro tempo. Quatro tempos, cinco tempos. Quanto tempo demora para se viver uma vida?
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Onde está o seu buraco?
Escolher, por exemplo, a cor da cueca ou a carreira profissional a seguir é uma tarefa árdua para qualquer ser pensante. Não que uma coisa ou outra determine se você é uma boa pessoa, e sim porque nos dois casos a variedade de opções é incrível, e você é obrigado a escolher apenas uma.Julgar essas e outras escolhas estritamente pessoais é comum e estritamente escroto, já que ninguém tem nada a ver com a sua faculdade de tecnologia da Carne, e tampouco com a sua cueca rosa de bolinhas verdes.
De fato. A priori a escolha é totalmente sua, meu caro padawan.
A "secundori" a escolha é sua e de todos os jedis à sua volta.
No meio urbano cada pessoa participa de vários núcleos coletivos ao mesmo tempo: escola, trabalho, família, etc. Esses grupos emanam um "poder coletivo" que esmaga as preferências, e, por conseqüência, a personalidade do indivíduo.
A mídia é o instrumento mais utilizado no processo de massificação. Moda, gírias, interesse popular em determinado aspecto, enfim, uma porrada de coisas é proveniente da influência exercida sob o indivíduo, que, apático (ou resignado), aceita tudo que lhe é imposto.
Como esse tipo de agressão não é física, é muito difícil notar as idéias pré-concebidas por determinados grupos sociais penetrando a fundo nos orifícios da individualidade.
Eu, pelo menos, não sinto nada.
Na época da ditadura era bem diferente porque, se fossem penetrar os oríficios de alguém, penetrariam com cacetes, na base de muita violência. E, apesar de não ter vivido essa época, posso afirmar, meu caro padawan, que doia demais.
Ou você acha que a ditadura se chama dita_dura por mero acaso?
É difícil perceber, por isso é difícil lutar contra a massificação.
Ressalto que é difícil, não impossível.
-E aí, tá a fim de lutar contra a massificação lá em casa, meu caro padawan?
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domingo, 11 de janeiro de 2009
do dia 25/06/08
"Hoje me senti Clarice. A hora do almoço foi a pior hora de todas. Minha única vontade era encostar em uma parede e ficar... nem vontade de fechar os olhos, era só de encostar mesmo.
Melancolia legítima. E é isso que me faz mulher, segundo o poeta, que era homem, obviamente.
Não saber porque, naquele momento, eu era Clarice piorava a situação; afinal, nem sei direito quem foi essa mulher, não a conheço.
Nadinha de Clarice em mim;
Só esse sentir-estranho, que teve hora pra começar.
Aproveitei os minutos restantes para descobrir o que nós (eu a minha amiga Lispector) sentíamos. Encontrei isso:
A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar."
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